Chicos existem muitos no Brasil, mas Buarque só tem um. Eu nunca tive muitas histórias pra contar, talvez algumas brigas na rua, dizer que corri por entre becos de favelas, repeti a terceira série, cortei meu braço e levei treze pontos, disputeis alguns campeonatos de futebol, ganhei algumas medalhas, sempre caia e batia a cabeça quando minha mãe estava lavando a cozinha mas, essas histórias todo Chico têm. Queria ter mais, num apareci nem em jornal de bairro, quem dera ter aparecido na TV, sou um ilustre desconhecido enquanto pedem autógrafos para ele na Hungria ou outro país qualquer que não sei a capital. Queria ter respondido calado a qualquer professor meu “você pode ter me reprovado, mas em casa eu tenho um canudo com a casa do Niemayer.” Mas não pense também que não temos nada em comum, eu jogava bola com meus amigos quando era moleque depois crescemos e ficamos conversando em volta de uma mesa de bar, mas repare, meus amigos eu conheço, os amigos dele você conhece: Bob Marley, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, uma moça chamada Elis. Já participei de festivais, na platéia, mas eu estava lá. Até hoje a única a me censurar foi a minha própria consciência nem nunca sofreram violência por causa das coisas que escrevi, ele não gosta de lembrar isso, mas quase explodiram um teatro por causa de uma peça dele. Queria ter escrito um livro, queria ter feito uma música, não falo inglês muito menos francês, não sei desenhar cidades nem inventar historias. O que sei é sou apenas um Chico, e isso basta para meus amigos, mas queria ser filho de Dona Maria Amélia. Quando meus filhos nascerem vou cantar Saltimbancos para eles, e me esforçar para inventar uma história de ninar, mas duvido que vire livro como Chapeuzinho Amarelo. Vou vivendo minha vida, não à sombra de meu xará, mas sob sua luz, brincando de reunir palavras, cantarolando cantigas de amor, sigo admirando seus passos, tornando assim minhas pegadas mais firmes.
Sou Chico, mas eu queria mesmo era ser Buarque.

