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Archive for the ‘Setembro 2007’ Category

E choveu…

Simples assim, talvez porque não estivesse ninguém olhando.
O primeiro pingo caiu tão desacreditado que quase não molhou o chão
Seus parentes mais próximos é que se fizeram notar, apagando um pouco a cor do solo
E antes que alguém os impedisse, trataram de chamar os próximos pingos, esses sim mais espalhafatosos e barulhentos
Vieram em tão grande numero que deixaram de ser pingos para ser algo coletivo, a chuva!
A principio eu poderia ter corrido, buscado o conforto de um lugar seco, mas resolvi seguir meus passos, indiferente a toda aquela manifestação natural, como se o fato pouco me importasse.

A maioria dos pingos chegava a mim pela frente, molhando rapidamente meu cabelo e enxarcando a camiseta, enquanto a calça devido ao peso extra, perdia a linha da cintura. Apertei o passo e segui. Os pingos e gotas que ficavam para trás corriam de volta no sentido da rua pelo meio-fio carregando pequenas oferendas. Traziam folhas, papéis-de-bala, bilhetes de amor com palavras já borradas.
Foi então já com o dedos enrugados, sem nenhuma parte de meu corpo seco que uma gota tocou mais fundo e pude compreender o que acontecia ali. Foi um sussurro de vento que me contou que aquela tempestade viera de longe, já fora algo imenso e salgado, mas o calor do sol fez lembrar saudosa a sua nascente e seu lento caminho até o mar. O vento me contou que mesmo estando lá no céu à chuva não se contentou de ver tudo lá de cima, cansou de brincar de formar figuras para divertir as crianças e a saudade foi tão grande, tão grande que a criança assustada se escondeu, a dona-de-casa recolheu as roupas do varal, o pessoal no ponto-de-ônibus se pôs a reclamar da sorte, e o trânsito continuou ruim como sempre. A nuvem tornou-se tempestade e desandou a chorar.
E eu ali, pequeno em minha existência, escutando o sussurro do vento, ouvindo as histórias de todos os lugares por onde aquela chuva havia passado, as montanhas, quedas e cachoeiras, o sinuoso curso do rio até cumprir sua missão de mar, a descoberta de um lugar chamado céu, a gota em companhia do vento em queda livre até o chão, a retomada do ciclo.

Tocado por sua sutileza me tornei chuva, o primeiro pingo de lágrima correu por meu rosto e me coloquei a chover, chovi até sentir o calor do sol novamente. Entendi então a beleza do circulo e sua sábia perfeição.

E choveu.
Simples assim…

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