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Archive for the ‘Agosto 2008’ Category

cemiterio_01

O cemitério é um estranho lugar para onde todos vão. Não importa se somente em nosso dia derradeiro ou visitando o túmulo de alguém, mas ninguém vai ao cemitério a passeio. Tem os góticos, mas eles também vão por obrigação. Obrigação de serem mórbidos. O cemitério é um lugar que a gente cisma em esquecer, mas as lembranças ali contidas ficam a espreita como um fogo factum.

Para José, Serafim e Antônia hoje tudo lembra sua mãe, e as futuras lembranças passaram por esse cemitério. Dona Maria Iracema Casagradi, foi mais uma Dona Maria nos bairros onde trabalhou como doméstica, foi Iracema nos bailes de carnaval da juventude onde fez muito marmanjo chorar de saudades, foi Casagrandi, por parte de pai, um fazendeiro desses ricos que viveram felizes o coroleonado brasileiro, achando que o lugar de pessoas como dona Maria é na senzala mesmo. Ela sempre fez questão de corrigir, Casagrandi com i, por favor, dizia ela, e acrescentava:

– Aquele merdinha nunca conquistou minha mãe e ainda não quis colocar o nome dele no documento, é com i, da maneira falada mesmo, para que eu não me esqueça o que ele fez e permita que alguma coisa dessas aconteça comigo!

Em túmulos maiores ou menores, novos ou antigos, conservados ou violados se alinham nomes de origem estrangeira que ajudaram a construir o Progresso. Construir, porque limpar isso era coisa para pessoas como dona Maria. Nunca teve medo de serviço e dava conta de apartamentos de alto luxo a mansões. As patroas gostavam porque ela não tinha dessas frescuras de usar luvas e nem reclamava de dores nas costas depois de dez horas arrastando móveis de madeira-de-lei fora-da-lei.

Mas somente Dona Maria sabia da força que a movia, não queria que nenhum dos seus três filhos vivos tivessem o fim que teve seu primeiro filho nascido lá no sertão do qual ela nunca falou para ninguém, que nem os irmãos tiveram tempo de conhecer. Sozinha e desesperada veio embora para cá, aqui pelo menos a sede e a fome não matam. A miséria aqui é tanta que sempre dá para repartir com mais um.

Trabalhava de sol a sol, de domingo a domingo, mas se negava a dormir no serviço. Voltava para casa, para a sua casa, onde dava de comer para os meninos, ajudava Antônia com o jantar e cobrava a lição da escola. Escola que Dona Maria não freqüentou, mas nunca aceitou filho seu fora de lá, mesmo quando José quis largar tudo para jogar bola.

O cemitério é um estranho oasis de silêncio, pouco se fala, muito se sente. Dona Maria não era de guardar rancor, teve um filho com cada marido, e ensinou a eles que não era por que eles não tinham um pai que não prestava que eles tinham que ser filhos imprestáveis. Ensinou a cada um deles a andar de cabeça erguida e saber seu valor independe do lugar que estivessem. Uma vez Antônia foi destratada por uma colega de classe do curso de medicina, e dona Maria em tom profético disse:

– Um dia filha você vai tratar do filho dessa moça que te destratou.

O cemitério guarda certas pegadinhas que nunca sabemos como nos comportar, você já desejou bom dia para alguém num cemitério? A vida de dona Maria era cheia dessas pegadinhas, que ela fazia piada com as amigas do bordado. Ela não entendia essa moda do politicamente correto, de não chamarem mais ela de preta, de cor ou outro apelido que o valha. Se querem acabar com o preconceito comecem tirando a plaquinha do elevador de serviço ensinava ela.

Em cada túmulo um tumulto de sentimentos, frases curtas tentando exprimir uma dor que não terá fim tão cedo. Uma data com estrelinha anunciando a chegada, uma cruz anunciando a partida. Às vezes as duas são iguais, é o filho não vivido que desistiu desse mundo antes de nascer e essa não-convivência vai ser mais presente que a partida daquela velhinha de 102 anos no túmulo ao lado.

Como escolher a foto que vai na lápide de alguém? Dona Maria tinha horror a fotos, não porque se achasse feia, lembrava bem seus tempos de Iracema, é porque a fotografia, dizia ela jogando o pano de prato sobre o ombro, a fotografia nos engana deixando o passado presente, as coisas boas e ruins que trago comigo eu deixo minha mente decidir o que devo lembrar.

O sol tomba no horizonte duplicando em sombras o número de cruzes, o caçula Serafim fecha a portinha de ferro, atrás dele seus irmãos. Todo o sentimento de perda represado vem à tona no trio. A gente passa a vida inteira tentando se acostumar com a idéia de que um dia seremos órfãos, mas esse dia sempre chega cedo demais. As mãos tremulas escrevem o nome da própria mãe com essas canetinhas de corrigir textos, o nome mal cabe no pequeno ossário, as letras em branco vão escorrendo e o que hoje parece inesquecível, amanhã será confundido com profanação barata. Onde já se viu pichar no túmulo dos outros? Os três se abraçam e ensaiam os primeiros passos na vida sem a mãe. Saem com a sensação de obrigação comprida. O ossário 13 do nicho 89 fica para trás. Somente com o nome escorrido, sem fotos, frases, velas ou flores. Ninguém precisa saber que ali jaz Maria, mãe devota e mulher exemplar, que ali jaz uma trabalhadora que nunca reclamou ou descansou, que ali jaz uma mulher que criou três filhos seus e educou outros tantos no seu convívio como diarista. Teve como última morada um ossário apertado, num nicho qualquer de um cemitério tão ordinário quanto nossas vidas, e passaria despercebida se não fosse pela ironia entre seu nome e sua morada final.

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path_dragon
A vida me difere em vários sentidos,
mas eu me diferencio em apenas alguns pontos.
Sinto-me diferente, estou mais vivo e mais esperançoso.
O que vai dentro de mim não pode ser mostrado, deve ser conquistado.
Essa conquista que tanto me enobrece,
e que me deixa infeliz, que não chega.
Por que demora tanto?

Quero viver plenamente sem olhar nem para o lado,
apenas seguindo meus instintos.
“Não posso, a vida não deixa………..
Ou posso….. Claro que posso.”

Vejo coisas que jamais vi antes.
Sinto coisas que nunca pensei sentir.
Ando por lugares ermos, mas são todos conhecidos.
Já passei por isso antes, mas não aqui, e nem assim.

Estou diferente, mas que diferença isso faz para mim…….

isso eu ainda não sei.

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mao22

Vinde a mim ossudos dedos!

Vinde a mim calosas mãos!

Vinde!

Encontra aconchego entre as carnes de minha face

Regozija-te com o metálico som da palma na pele

Então ri um riso amargo

E goza num alto pódio tua falsa vitória

Pois antes a cara tatuada de dedos amigos e o peito transbordante,

Que as mãos doídas e o coração gelado!

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yoga_pela_paz2

Bora bicho-grilar??

Domingo, dia 17 de agosto na Praça da Paz – Ibirapuera

9:00 ÀS 9:45 – Show do Nada Prem

9:45 ÀS 10:00 – Abertura

10:00 ÀS 11:00 – Mantra de Bençãos do Swami Chidananda / Prática de Yoga com Regina Shakti

11:00 ÀS 11:15 – Mantra Shambhavi Chopra Meditação Induzida Coletiva com Marcia De Luca

11:15 À 12:45 – Show do Krishna Das

Programação completa:

http://www.yogapelapaz.org

Namastê

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margarida

Meu coração partido ao meio

É cor e ação

Com novas cores

Descobri novos sabores

Mudei minha ação

E fiz uma bela canção

O abismo que eu mesmo me atirei

Hoje é vão

Espaço vencido passo a passo

Foi assim

De soluço em soluço

Achei solução

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aspirina01

Estou aqui para dizer que atualmente ando tão debilitado. Qualquer motivo me faz ficar doente, é uma gripe, uma dor de estômago, uma dor de cabeça, etc. etc. etc. Essas bobagens estão me transformando em cliente preferêncial das clinicas de saúde, um verdadeiro peregrino.
Nessas minhas peregrinações passei a observar as pessoas ao meu redor. É incrível o número de pessoas doentes. Temos tantas clinicas e elas estão sempre lotadas, pode ser de dia, tarde, madrugada, pode ser a hora que for, vai sempre estar lotada, não importa seu dinheiro ou seu convênio, você vai ter que enfrentar fila!
Enfrentar fila é um saco, doente então nem se fala.
O que mais me indigna é porque a pessoa tem que ficar doentes? A vida é fácil, mas viver anda difícil, e para ajudar ainda temos que ficar doentes? Por que Deus faz isso? Já não é suficiente a dor da perda, a dor de amor, a derrota, a tristeza? Você quer coisa pior que a tristeza? e ainda temos que ficar doentes? Nós não somos a imagem e semelhança de Deus?
Ah!! Então quer dizer que Deus também fica doente. Deve ser por isso que o mundo anda esse caos. Deus deve estar com uma doença bem séria e não consegue forças para olhar por seus filhos. Bom! E esse negocio de imagem e semelhança hein? Quer dizer que fisicamente Deus deve ser um sujeitinho bem judiado, porque francamente, as pessoas não tem se cuidado muito, são raras as exceções, e ainda dizem que Deus é brasileiro. Coitado.
De duas, uma. Ou da próxima vez ele não cria o homem a sua imagem e semelhança ou vai escolher outro país que não seja o Brasil para nascer.
Ahh! Acabei de lembrar que hoje é aniversário da minha gripe. Hoje ela faz três anos. Foi meu maior orgulho quando ela nasceu. Logo no primeiro dia já disse sua primeira palavra. ATCHIMM. Fiquei todo orgulhoso, logo no primeiro dia dizer alguma coisa. Achei-a inteligentíssima, mas com o decorrer do tempo ela foi se revelando.
Além de burra, porque ela só sabia dizer ATCHIMM, era egoísta e ciumenta. Se só por um dia eu a trocasse por um copo de cerveja gelada, lá vinha ela querendo aparecer. Se eu passasse uma noite em claro, no outro ela não me deixava dormir. Ainda bem que ela está ficando crescidinha, já é quase uma pneumonia! Hoje ela aprendeu mais uma palavra ATCHIMM TOSSE TOSSE.
Tenho que curtir ela bastante porque logo logo aparece uma tuberculose. Ai que vai ficar com ciúmes vai ser eu, porque uma tuberculose não pode vir arrancar de mim a garotinha que eu criei com tanto amor e carinho.


No dia do aniversário dela, eu a castigo e não dou sua aspirina.

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