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Posts Tagged ‘Spaghetti ao molho Almodóvar’

cubos
Tom voltou com a rua a morder-lhe os ombros. Pensou no dinheiro que devia no banco, na prestação atrasada e envergonhado não conseguiu olhar para seus instrumentos. Caminhou até a vitrola que estava no chão, a pilha de vinis ao lado que ele conhecia de cor, passou os dedos lentamente, olhando a capa de cada um.

Já sabia o que queria ouvir mas gostava de olhar os detalhes de cada capa. Essa era uma das implicâncias dele com o CD. Achava tudo compacto demais. O vinil dizia, tem seu ritual, não é algo eletrônico que possa ser programado. Cada disco tem seus lados e cada faixa seus riscos: o risco que tira a agulha do lugar e o risco da canção que pode rasgar a alma com seus acordes. Escolheu You’re My Thrill da Billie Holyday. Gostava da capa desse disco por causa da luz da foto, que destacava os fortes traços dela, mas achava que essa força era contrastada pelo olhar exultante da moça. Ele gostava de ficar imaginando o que poderia chatear alguém como ela.

Puxou o vinil, retirou o plástico, olhou contra a luz da janela. Girou de um lado. Outra busca. Girou de novo. Assoprou circularmente e tornou a olhar contra a luz. Gostava de imaginar as notas ali impregnadas. A cada vez que tocava sabia que parte delas eram apagadas. Buscava sorve-las atentamente como uma maneira de amenizar a perda. Aproximou-se da vitrola colocou lentamente o disco no circulo de velcro, Levantou o braço da vitrola como um pai com sua filha debutante. Abaixou o braço da como um pai entrega a filha no altar.

O barulho característico invadiu a sala, logo após a voz de sua diva mandava embora os monstros que assustavam o menino Tom.

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Nota da Redação:
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cubos

Ângela vivia com a cabeça nas nuvens e o corpo no quinto andar de um prédio qualquer.

Tom realizava seus pensamentos em notas musicais e habitava a sétima escala do mesmo prédio ordinário.

Vicente achava que já tinha vivido tudo na vida e amargurava o cenário assistindo tudo pela janela do prédio da frente.

Mas eles não se conheciam ainda, nem tinham reparado em nada além dos poucos mais de 60 m² de seus kitnets, fato causado pelo hábito de reclamar da vida corrida. E é justamente quando estamos desatentos e sem acalanto que histórias de cinema acontecem.

Foi mais ou menos assim, um dia Ângela chegando em casa, cansada e estressada, sem pensar preparou alguma gororoba congelada e se pos a comer e sonhar com um amor como o de Rodolfo e Jade, o casal de “Chamas da Paixão”

Tom chegou praticamente no mesmo horário, voltava de um happy-hour, ainda alegre com alguns drinks na cabeça, tirou sua camisa, chutou o sapato para um canto e puxou sua companheira. Já tinha ela em suas mãos, beijou-a ainda com bafo do genérico maltês e se pôs a tocar em sua velha gaita um quase animado, um quase lamurio do Bob Dylan.

Vicente, sentado na janela, com um dos braços apoiados para fora estava absorto com o trajeto que a fumaça que seu cachimbo fazia, buscava formas que se repetiam, chegava a ficar irritado com o pouco vento por não deixar que isso acontecesse.

Não sei se foi o calor abafado que anunciava que a chuva chegaria antes da madrugada ou aquele instante que a cidade parece ficar suspensa como se o caos urbano parasse em um suspiro, só sei que as notas musicais de Tom foram escorrendo pela fachada do prédio, passaram pela janela do andar inferior e foram cair como goteira no para-peito da janela de Ângela. Aquele barulho externo chegou justamente quando Rodolfo, o galã, ia perder tudo, de novo, em mais um novo capítulo decisivo da novela. Ângela, apesar do calor, fechou a janela, ignorando as notas pingando e se trancou em seu mundinho de mais um trabalho-comida-congelada-novela-trabalho. Vicente, na janela em frente levantou a cabeça, reparou Tom dançando e tocando na sala de seu apartamento. Não sorriu ao vê-lo bêbado e cambaleante a dançar uma dança rouca, nem o maldizeu, apenas retornou para seu cachimbo que se apagara.

Mas o verão é teimoso e traz noites que se arrastam preguiçosas. Foi justamente em uma noite dessas típicas de verão tropical, com essas típicas chuvas tropicais que tipicamente teimam em cair na hora de voltar para casa que Ângela chegou com um vestido preto todo ensopado a lhe contornar a silueta. Desceu do salto, tirou o vestido, uma alça do soutien, outra alça, soltou aquele maldito fechecler e se deixou estar só. A sós e só de calcinha no sofá. Ainda cansada por ter corrido do ponto de ônibus até sua casa, adormeceu enquanto o sol se escondia atrás do prédio de Vicente.

Acordou no escuro sem saber que horas eram. O hábito levou sua mãos ao controle remoto. Não funcionou. Checou as pilhas. Nada. Tentou acender o abajur e não obteve resposta. Pensou em Rodolfo e no capitulo que perdia. Sem a iluminação interna, a cidade invadia a sala de Ângela por um feixe de luz laranja. Ângela se levantou, foi até a janela ainda só de calcinha viu seu quarteirão no escuro e amaldiçoou o possível gerador de luz que queimara. Com calor, não se incomodou com a gota de suor que lhe escorria. Caminhou cada passo até a cozinha pensando no que comer. Parou em frente à fruteira. Fez sua escolha e voltou. Deitou no tapete da sala já na segunda mordida da maçã. A tevê apagada refletia parte de seu corpo de finos traços. Ângela apoiou os pés na parede, as pernas afastadas, deixou a maça de lado e ficou à imaginar.

Tom chegou ainda mais desafinado neste dia, a chuva o fez ficar algumas saideiras a mais. Tirou a camisa, chutou o sapato em outro canto qualquer, parou em frente à estante, correu os dedos pelas prateleiras, sem nenhuma pressa e como um bom maestro escolheu sua dama. Abriu delicadamente os dois botões do estojo que protegia seu saxofone, envolveu em seu pescoço, trouxe o metal frio mais próximo do seu peito quente, abocanhou a extremidade e de maneira lasciva e se pos a tocar uma melodia frenética do mestre Coltrane. As notas batiam agudas, hora curtas, hora longas pela parede de sua sala. Tão logo aquele ambiente estava tomado, as notas foram em direção ao prédio de Vicente, que mal-humorado ecoou as notas fechando a janela, e assim de janela em janela, como se procurassem algo especifico, as notas chegaram novamente a janela de Ângela. Contemplaram Ângela em seu toque mais intimo. Encontraram em seu corpo febril a escala correta, a perfeita composição. E como todo bom Jazz, foi de improviso que romperam com a rotina harmônica de Ângela.

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